Surpreende-me como podem soltar tão ultrapassado exagero quando a humanidade já venceu tantas provas, tendo visto quanto sangue e quanto grito (gritos visíveis, pois são!), e não se tendo perdido até hoje — o que se dá é muito distinto, que ela se desvenda a cada dia mais, e um pedaço novo do mundo acha-se a todo o tempo.
Pergunto-me, pois, o porquê da durabilidade deste lugar-comum (perdoável quando dito por leviana brincadeira, mas incômodo quando posto em tom de preocupadíssimo ultimato), e me ocorrem lembranças das pessoas atônitas, mui indignadas — e que não fazem nada para salvar o mundo que vai sumindo, como dizem.
Ah, o fato é que a vulgaridade está em voga? Ora, vá ver Calígula. Ou será a pedofilia, “esse mal do século XXI”? Ora!, vá ler Lolita…
Da Arte como causadora do estoicismo
A Arte tem-me feito menos impressionável. Literatura. Cinema. Assistir a cenas de impacto é fato que me tem presenteado com uma armadura de impassibilidade, bem como com um aprendizado inapagável da Histíria e da Realidade. A Arte ensina, com seus floreios e rodeios (e suas rimas, pois não?), sob os quais se insinua uma crueza apenas amenizada — feita tolerável.
O terceiro e útimo Ora (por ora)
Mas veja bem… eu não consinto com a violência, mesmo que me cale. Não obstante tudo, ainda sinto náuseas diante do mal real, da crueldade não-ficcional com que se rejubilam os programas de televisão. A agressão me dói. Mas ora, nem por isso vamos decretar que o mundo está perdido! Isso seria bom demais para ser Verdade. Isso só poderia ser Arte.
Vovô viu a uva
Do vestido
No varal.
Vovô viu a velha
Viu a veia
A vacina
(Não viu vírus)
A vulva viu vovô.
Vovó viu o vinho
Viu a vela
O veludo
A vitrola.
Vovó viu o vaivém
Viu vexame.
O voo não viu o vértice.
Vovô, vulnerável, viu o vórtice.
Vovó, voraz, viu o vulto.
Vovô viu a varanda.
Vovó viu a verdade.
Vovô e vovó, vestidos, viram Vênus da vidraça.
Renato Trevizano
“Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela, simplesmente…
E sei apenas do meu próprio mal,
Que não é bem o mal de toda gente,
Nem é deste Planeta… Por sinal
Que o mundo se lhe mostra indiferente!
E o meu Anjo da Guarda, ele somente,
É quem lê os meus versos afinal…
E enquanto o mundo em torno se esbarronda,
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago País de Trebizonda…
Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças,
É lá que eu canto, numa eterna ronda,
Nossos comuns desejos e esperanças!”
Meu poema de Mario Quintana.
