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Dezembro 31, 2010 / Cronicíssimo

Ora, Ora, Ora ou A Perdição do Mundo

Penso que a frase “O mundo está perdido” seja o maior clichê da humanidade, dito muito e sempre, e pensado ainda antes (quando não se falava senão por grunhidos), não sendo mais remota sua concepção por culpa da limitação, à época, do cérebro primata.

Surpreende-me como podem soltar tão ultrapassado exagero quando a humanidade já venceu tantas provas, tendo visto quanto sangue e quanto grito (gritos visíveis, pois são!), e não se tendo perdido até hoje — o que se dá é muito distinto, que ela se desvenda a cada dia mais, e um pedaço novo do mundo acha-se a todo o tempo.

Pergunto-me, pois, o porquê da durabilidade deste lugar-comum (perdoável quando dito por leviana brincadeira, mas incômodo quando posto em tom de preocupadíssimo ultimato), e me ocorrem lembranças das pessoas atônitas, mui indignadas — e que não fazem nada para salvar o mundo que vai sumindo, como dizem.

Ah, o fato é que a vulgaridade está em voga? Ora, vá ver Calígula. Ou será a pedofilia, “esse mal do século XXI”? Ora!, vá ler Lolita…

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Da Arte como causadora do estoicismo

A Arte tem-me feito menos impressionável. Literatura. Cinema. Assistir a cenas de impacto é fato que me tem presenteado com uma armadura de impassibilidade, bem como com um aprendizado inapagável da Histíria e da Realidade. A Arte ensina, com seus floreios e rodeios (e suas rimas, pois não?), sob os quais se insinua uma crueza apenas amenizada — feita tolerável.

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O terceiro e útimo Ora (por ora)

Mas veja bem… eu não consinto com a violência, mesmo que me cale. Não obstante tudo, ainda sinto náuseas diante do mal real, da crueldade não-ficcional com que se rejubilam os programas de televisão. A agressão me dói. Mas ora, nem por isso vamos decretar que o mundo está perdido! Isso seria bom demais para ser Verdade. Isso só poderia ser Arte.

Renato Trevizano

Novembro 21, 2010 / Cronicíssimo

Vicissitudes de Mobral

Vovô viu a uva
Do vestido
No varal.
Vovô viu a velha
Viu a veia
A vacina
(Não viu vírus)

A vulva viu vovô.

Vovó viu o vinho
Viu a vela
O veludo
A vitrola.
Vovó viu o vaivém
Viu vexame.

O voo não viu o vértice.

Vovô, vulnerável, viu o vórtice.
Vovó, voraz, viu o vulto.
Vovô viu a varanda.
Vovó viu a verdade.

Vovô e vovó, vestidos, viram Vênus da vidraça.


Renato Trevizano
Novembro 9, 2010 / Cronicíssimo

Cronologia

Quero
Quero
Quero
Quero
Quero
Quero morrer de rir
Quero morrer de rir
Quero morrer de rir
Quero morrer de rir
Quero morrer de rir
Quero morrer de rir
Quero morrer de rir
Quero morrer de rir
Quero morrer de rir
Quero morrer
Quero rir


Renato Trevizano

Novembro 4, 2010 / Cronicíssimo

Palavras para sempre

As ideias nunca morrem…”, bem disse V. Mas afinal, que é uma ideia?
Uma ideia é, antes, uma palavra. A palavra tudo resume. Tudo principia e morre em palavras — e são elas que, em verdade, não morrem jamais.
Dizem ao condenado à morte às beiras do cadafalso: “Quais são suas últimas palavras, senhor?” — talvez sem o “senhor”, mas dizem.
O seu amor, eu bem presumo, nasceu duma palavra, e não do primeiro beijo ou do primeiro toque das mãos — foi um “oi” que juntou os olhares com propriedade, não foi? — exceto em se tratando de um casal mais formal… neste caso, um “olá” ou um “muito prazer” pode ter vindo a calhar.

Não fossem as palavras dos livros, que seriam dos pensamentos dos antigos gregos e latinos? Oh, que seria dos grandes escritores russos de todos os tempos? Dos filósofos? Dos músicos? Dos poetas? Dos cineastas queridos?… E Machado de Assis? Que restaria da finura de Machado se não fossem estes signozinhos perversos e maravilhosos?

Ah, hoje… a palavra imperativa que leva ao gasto. Nos primórdios, a palavra dum deus que disse que se fizesse luz, água, vida, tudo — e tudo se fez.
Desde quando inexistiam as palavras propriamente ditas, que os puristas insistem em cercar como sendo únicas e verídicas, veja só, já existiam palavras. O pedroso palavreado assim o é. Pois estou certo de que “argh”, “grr” e suas variantes não são, senão, onomatopeias… e onomatopeias são, é sabido, palavras.

Mas ora, entenda-me bem… Não se prenda às reles vinte e seis letras combinadas que costumamos usar no que nomeamos verbetes. A palavra vai além disso. Os mudos também falam. Também os surdos sentem palavras, e os cegos, e todo o mundo. Palavras não têm limites, pois elas são sensíveis ao toque, à audição, à visão… até há quem coma palavras — as calorosas palavras rodeadas de batatas e molho de tomate!

E assim gira o mundo… Hitler e sua prole de zumbis: palavras!, a expansão de Napoleão: palavras!, o poder de todos os homens do mundo: palavras! — pois também a força é uma palavra, uma palavra audível, algo gutural, sem escape.

Palavras y palabras… words et mots… Não importa quem diga e como diga, que sussurre ou grite, que grave no papel ou na pedra, a pena ou a teclas… O mundo… ora, mundo é uma palavra!

Renato Trevizano

Novembro 3, 2010 / Cronicíssimo

Da questão social

Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela, simplesmente…
E sei apenas do meu próprio mal,
Que não é bem o mal de toda gente,

Nem é deste Planeta… Por sinal
Que o mundo se lhe mostra indiferente!
E o meu Anjo da Guarda, ele somente,
É quem lê os meus versos afinal…

E enquanto o mundo em torno se esbarronda,
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago País de Trebizonda…

Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças,
É lá que eu canto, numa eterna ronda,
Nossos comuns desejos e esperanças!

· · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · ·

 

Meu poema de Mario Quintana.


 

Julho 11, 2010 / Cronicíssimo

www.viva.com

(Por Rafaela Trevizano, excepcionalmente)

Eu não gosto dessas coisas.

Messenger, sites de relacionamento.

Mas gosto de uma coisa: blogs. Pra mim é o que salva nessa internet fechada que os adolescentes criam. Digo internet fechada, porque todos se fecham em sites de relacionamento e de conversas on-line que esquecem do quão é vasta e maravilhosamente interativa a internet.

Quando interajo com a maioria das pessoas (que são insuportavelmente condicionadas ao que é simples, que não requer reflexões) elas vivem me dizendo:

— “Cê” fica tanto na internet, então “pq” “num” te vejo online, me bloqueou?

— Não sei como “vc” consegue! Sem Orkut e MSN não tenho nada “pra” fazer.

Pois é.

Eu acho que eu vivo o mundo ao meu redor. De uma forma diferente das deles. Eu não me sinto bem diante da idéia de me deixar controlar por essas pequenices. De perder aquilo que poderia ser um sabor da vida real, que tem sido tão secamente transportado para uma tela. Tantas crianças dessa era virtual nunca passaram por baixo de uma cerca de arame-farpado, mas ainda assim roubam leite, ovos, legumes e até caviar de seus vizinhos; não contam sua rotina aos pais, mas a expõem detalhadamente a qualquer desconhecido que esteja na rede; fazem de tudo para não escapar a um flash na “balada”, mas uma foto com a vovozinha de cabelos de algodão doce? nem no natal!

Então resolvi me associar a esta página, com minhas ponderações também crônicas.

Pontuar minha visão com algo mais palpável – aliviar minhas ideias desse fardo solitário.

E dar a minha opinião sobre as coisas.

· · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · ·

No caso de ela não agradar, beijos.

Rafaela Trevizano

Junho 13, 2010 / Cronicíssimo

Ruminâncias

Antes de mais nada, uns termos que merecem destaque:

crô·ni·co adj. 1. Que dura há muito. 2. Persistente, inveterado. 3. Med. De longa duração (doença).

a·na·crô·ni·co adj. 1. Em que há anacronismo. 2. Que está em desacordo com a moda, o uso, constituindo atraso em relação a eles. 3. Avesso aos costumes atuais; retrógrado.

cro·ni·cís·si·mo adj. 1. Superlativo absoluto de crônico. 2. Muito crônico.

Este blog nasce de ideias crônicas, não sendo o primeiro que me ocorre. Pretendo pôr em pauta temas que me agradam — literatura e cinema sobretudo, acrescidos de tudo o mais quanto houver (sim, sou impreciso) —, os quais são também crônicos — cronicíssimos! — e por vezes, por que não?, anacrônicos.

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Se simpatizar, um muito obrigado.

Renato Trevizano

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